Entendendo o Subprime
Desde meados de agosto que ouvimos falar dos títulos subprime. Eles foram os responsáveis pelos dias de tensão que muitos passaram no começo do segundo semestre. E ainda hoje os subprimes atormentam os mercados.
Mais dia, menos dia, aparece alguma notícia nova relacionada a estas hipotecas. Começando com o prejuízo bilionários de grandes bancos, falta de liquidez nos mercados e chegado a pacotes para ajuda às instituições financeiras. A verdade é que os subprimes podem vir a ser os responsáveis por uma eventual recessão na economia americana.
Neste post vou tentar deixar mais claro o que é, e como funcionam, as hipotecas subprime. Vamos lá.
O que são
Os subprimes são linhas de financiamento para aquisição de casa própria oferecidas nos Estados Unidos. O termo subprime se refere à classificação do crédito dos tomadores de empréstimo, e não à taxa de juros como alguns pensam.
Ou seja, este tipo de financiamento é oferecido para pessoas com uma situação de crédito não muito favorável. Talvez com alguma pequena restrição, ou mesmo com o nome protestado. De alguma forma estas pessoas não podiam ter acessos às linhas normais de crédito, e por isso utilizam os subprime.
Sendo assim, os subprime na verdade possuem taxa de juros bem maiores que as linhas de crédito convencionais, já que o risco de se tomar calote dos tomadores de empréstimo é maior.
Embora os juros fossem maiores, mais pessoas passaram a ter acesso ao crédito. Com isso mais pessoas puderam comprar casas e isso fez a demanda por imóveis aumentar bastante nos Estados Unidos lá pelos idos de 2001/2002. Nesta época os Estados Unidos tinham juros anuais de 1% (não para o financiamento, mas é como se fosse a Selic deles).
Com a demanda em alta os preços inevitavelmente sobem. E este ciclo se repetiu por uns 5 anos até 2006, quando a bolha imobiliária começou a estourar.
Fator complicador 1 - A bolha
A economia dos Estados Unidos, seguindo um ciclo, começou a se degradar. A crise da indústria automobilística afetou bastante alguns estados fortemente dependente das indústrias. Com o aumento do desemprego muitas pessoas não puderam honrar seus compromissos, deixando assim de pagar aos bancos. Nesta época, os juros americanos já eram mais de 4% ao ano.
Se o problema dos bancos fosse apenas o calote, a coisa não seria tão ruim. Quase todos os contratos subprime possuem uma cláusula onde o banco pode reaver o imóvel em caso de inadimplência. Seria só tomar a casa de volta, vender e tudo estaria certo. Acontece que, como falei antes, foi criada uma bolha imobiliária.
E sendo assim, os preços caíram bastante quando a bolha estorou. Neste caso o prejuízo passava a ser duplo para os bancos: ele havia emprestado US$ 100 mil para uma pessoa comprar uma casa de US$ 100 mil. Digamos que o banco receberia US$ 150 mil no fim das contas. Daí ele recebeu só US$ 10 mil e a casa, que ele pode pegar de volta, mas só vale US$ 50 mil agora.
Fator complicador 2 - A liquidez
Piorando ainda mais a situação, a casa valeria US$ 50 mil se o banco conseguisse vender. Mas como a demanda estava caindo cada dia mais, o banco não consegue vender a casa e pegar o dinheiro para estancar o prejuízo. No fim do mês que vem a casa passa a valer US$ 45 mil. E ainda menos gente quer comprar. Este é o clássico “problema de liquidez”.
Mas isso tudo talvez não tivesse tanta proporção se não fosse um último fator: o surgimento de um mercado de hipotecas subprime. E com o surgimento desse mercado, surgiram os corretores de hipotecas subprime.
Fator complicador 3 - O mercado de hipotecas e os corretores
Até algum tempo atrás, caso alguém quisesse um empréstimo precisava ir pessoalmente ao banco e olhar na cara do gerente. De certa forma isso era mais seguro para os bancos. Havia melhor chance de avaliar o perfil de crédito do cliente e, se fosse o caso, negar o empréstimo.
Mas os bancos “descobriram” que poderiam ganhar mais caso criassem um outro canal para a concessão de empréstimos. Vamos dizer que eles passaram a “terceirizar” o setor de empréstimo.
Isso era vantajoso pois aumentava brutalmente o poder de captação do banco. Se o banco só tivesse 10 agências, concederia X empréstimos por mês. “Terceirizando”, passaria a conceder 15X empréstimos por mês. Mais clientes, mais lucro, pensaram.
Acontece que os corretores não eram tão criteriosos quanto os bancos e ofereciam crédito à vontade. O que interessava era a comissão que iriam ganhar. Sendo assim, emprestaram dinheiro para pessoas “sub-subprime”.
Fechando o ciclo vicioso
E foram os clientes “sub-subprime” que começaram com os primeiros calotes. Calotes que estouraram a bolha, criaram a crise, e levaram os clientes “subprime” a não pagar o banco e querer vender suas casas. Casa que caiu de preço e o banco tomou. E o banco ficou sem o dinheiro e com uma casa que vale a metade do valor…
…E os fundos de investimento que investiam em títulos subprime deram prejuízo. E o investidor sacou o dinheiro do fundo. E isso virou notícia e fez a bolsa americana cair…
…E o americano que perdeu dinheiro na bolsa tirou o seu dinheiro da Coréia, do Japão e do Brasil (todos com maior risco que os EUA), e o mundo tremeu.
E assim está até agora. Vários bancos centrais do mundo injetaram dinheiro, concederam empréstimo, etc. Parece que foi o suficiente até agora. Mas caso a economia americana apresente desaleração/desemprego novas pessoas podem vir a não honrar os pagamentos. Começando tudo de novo.
Vamos aguardar e ver o que acontece.
December 20th, 2007 at 5:25 am
Ótimo post.
Fazia um tempo que eu procurava um artigo esclarecedor sobre essa crise.
Valeu!
January 21st, 2008 at 4:04 pm
[…] esse caos ainda é por causa da crise do subprime. O presidente dos Estados Unidos, George Bush, até anunciou um pacote para tentar conter a crise […]